terça-feira, 22 de abril de 2008

Olá, os pontos abaixo são aqueles novos que levei para o Trabalho de Fé. Deixo registrado aqui e espero que possamos usá-los mais.


Oxalá

Jurei seguir a Sua luz
Jurei beijar a Santa Cruz
Oxalá, aos Seus pés me dobrarei
E em Seu manto me envolverei
Adorarei aos que encontrar


Iemanjá


Eu fui na areia da praia
Pedir proteção para essa congá
Daí-me forças, minha mãe,
Daí-me forças!
Leve as mágoas pro fundo do mar


Oxum

Oh, minha boa mãe,
Nossa Senhora da Conceição
Oh, minha boa mãe,
Nossa Senhora da Conceição
Nos cubra com seu manto
E daí a Vossa proteção
Nos cubra com seu manto
E daí a Vossa proteção

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Tristeza dos Orixás

Por Fernando Sepe

Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que traz em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas...

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pêlos do corpo. Realmente o Sol tinha escondido-se nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das "guerras", saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu-se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram-se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe "coruja" quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

- Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? - ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

- Desculpe, sabe, ando meio ocupado - Respondeu um triste Ogum.

- Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

- É, vim até aqui para "desabafar" com você "mãeinha". Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a " espada da Lei" que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das "supostas" demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles... Estou cansado...

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o "Orixá da Guerra", um homem impiedoso que utiliza-se de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram "quebras e cortes" de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna-se uma guerra de vaidade, um show "pirotécnico" de forças ocultas. Muita "espada", muito "tridente", muitas "armas", pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

- Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-na em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição.

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado...

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava-se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via-se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia-se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam-se na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso...

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo-se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam-se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram-se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando-o a figura do Diabo:

- Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! - Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.

Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere! - pensou Iemanjá! - Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou-se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

- Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de "apenas" prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras "bases de luz" na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir...

Quando Oxalá calou-se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam-se nesse ideal. E aquilo alegrou-os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos-velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram-se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem - aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam - se. O alto os abençoava...

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo-astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou-se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem-se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem-se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem-se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado. Honrem-los. Sejam luz, assim como Eles!

Exe ê o babá (Salve o Pai Oxalá)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Portal de Defesa da Umbanda e demais cultos Afro-Brasileiros – PDU

Estréia nesta 3ª. feira, 08/04/2008, às 20:00 horas,
o Portal de Defesa da Umbanda e demais cultos
Afro-Brasileiros
PDU — com o debate ao vivo,
sobre a entidade ZÉ PILINTRA, com sacerdotes
de vários seguimentos religiosos.

O portal será: www.pdu.com.br

quarta-feira, 2 de abril de 2008

100 Anos de Umbanda (Folha de S.Paulo)


O Terreiro da Contradição


Umbanda adotou rituais da macumba por serem mais "dramáticos" que os do kardecismo, mas buscou se "desafricanizar" ao rejeitar feitiçarias e matanças

História da religião foi marcada pela hostilização da polícia, da Igreja Católica e de neopentecostais



MARCELO BERABA
DA SUCURSAL DO RIO

A umbanda comemora neste ano seu primeiro centenário. Reconhecida por sua capacidade de assimilar e misturar rituais, crenças e símbolos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, dos cultos africanos, da pajelança indígena, de tradições orientais e, mais recentemente, do esoterismo, ela continua a perseguir os mesmos objetivos de quando foi criada: respeito e reconhecimento social.

A religião ainda é estigmatizada e tem dificuldades de firmar identidade própria e uma imagem positiva -a maioria dos brasileiros ouvidos em 2007 pelo Datafolha acha que a umbanda é coisa do demônio.

Perseguida durante décadas pela polícia, depois pela Igreja Católica e, mais recentemente, pelos evangélicos neopentecostais, ela teve seu apogeu entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1980.

Hoje, sofre um pequeno declínio de seguidores, segundo o censo de 2000, mas está presente em diversos países, é sacudida por movimentos de revitalização, principalmente em São Paulo, e influencia outras religiões.

Espiritismo abrasileirado

No dia 15 de novembro de 1908, exatos 19 anos após a Proclamação da República, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou numa sessão espírita kardecista em Neves, São Gonçalo, município fluminense próximo ao Rio, então capital federal. Foi um escândalo.

A Doutrina Espírita do francês Allan Kardec [pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, 1804-1869] tinha seguidores no Brasil desde 1865.

Embora haja indícios de incorporações de espíritos de índios e de escravos negros nas diversas formas de macumba que existiam no Rio de Janeiro do século 19, os kardecistas não os admitiam por considerá-los espíritos marginais e pouco evoluídos. Quem recebeu o caboclo indesejado, e logo em seguida o preto-velho Pai Antônio, foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz de 17 anos que se preparava para entrar para a Escola Naval.

Os registros daquele episódio variam conforme a fonte.

Em um dos relatos, reproduzido no livro "Umbanda Cristã e Brasileira" (J. Alves Oliveira, 1985), o caboclo teria assim se revelado: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios [caboclos], devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho [o médium Zélio de Moraes] para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou".

Em 1970, Ronaldo Linares, hoje presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, ouviu a história da revelação do próprio Zélio (1891-1975). O espírito se apresentou como caboclo brasileiro e foi contestado por um médium kardecista, que disse que via nele "restos de vestes clericais".

O caboclo então teria explicado: "O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre, meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro".

Quando perguntaram seu nome, respondeu: "Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existirão caminhos fechados. Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos".

A sina da umbanda, desde então, é trabalhar para impedir que os seus caminhos se fechem. A adoção do 15 de novembro como marco da criação da umbanda é uma convenção da década de 1970.

Embora o registro da incorporação seja de 1908, o primeiro terreiro, o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, do mesmo Zélio de Moraes, teria sido criado na década de 1920, e o estatuto que norteou o seu funcionamento e serviu de referência para dezenas de outros terreiros umbandistas que seguiram as orientações ditadas por Zélio é de 1940.

A nova religião nasce de uma aparente contradição.

De um lado, o desejo de se diferenciar das práticas de feitiçaria dos cultos de origem africanos considerados primitivos; do outro, a decisão de abrasileirar os espíritos que se manifestavam por meio dos médiuns, dando espaço de honra aos índios e aos escravos africanos e descendentes.

A umbanda deu os seus primeiros passos no mesmo período em que a sociedade brasileira vivenciava um forte processo de transformação. A hegemonia econômica da agricultura começava a ceder espaço para a nascente industrialização, que trazia consigo novas classes sociais.

A antropóloga norte-americana Diana Brown [leia entrevista na pág. ao lado], pioneira no estudo da umbanda na década de 1960, constatou que os fundadores da religião eram majoritariamente de classe média, insatisfeitos com o espiritismo kardecista que praticavam e observadores dos centros de macumba que funcionavam nas favelas.

"Eles passaram a preferir os espíritos e divindades africanos e indígenas presentes na macumba, considerando-os mais competentes do que os altamente evoluídos espíritos kardecistas na cura e no tratamento de uma gama muito ampla de doenças e outros problemas", escreveu em "Uma História da Umbanda no Rio" (1985).

Os fundadores achavam os rituais da macumba mais "estimulantes e dramáticos" do que as sessões de espiritismo, mas rejeitaram aqueles com matança de animais e incorporação de espíritos que consideravam diabólicos, como os de Exu.

O esforço inicial foi no sentido de desafricanizar a umbanda e "purificá-la". É o espiritismo de umbanda, logo umbanda branca, que adota princípios e ícones do catolicismo, crenças e compromissos do kardecismo (como a mediunidade, a reencarnação e a prática da caridade) e adere à magia e ao culto aos orixás africanos, mas sem a feitiçaria e as matanças da macumba e da quimbanda.

O desafio inicial era como, ao mesmo tempo, incorporar essas aquisições e se diferenciar de suas matrizes. O primeiro terreiro mantém a referência kardecista (Centro Espírita) e homenageia um ícone católico (Nossa Senhora da Piedade).

Décadas de perseguições

Há um fator objetivo para aqueles médiuns tentarem se distinguir da macumba.

Apesar da liberdade religiosa conquistada com a República, o Código Penal de 1890 proibia "praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios". O código de 1942 ainda reprimia os "feiticeiros", mas não todos, apenas os acusados de usarem os seus poderes para o mal, segundo estudos da antropóloga Yvonne Maggie.

Um parêntese: na interpretação de Yvonne Maggie, ao combater a feitiçaria, o código de 1890 de alguma maneira indicava que o Estado e sua elite acreditavam nos poderes sobrenaturais dos feiticeiros e por isso os perseguiam.

A primeira fase de expansão da umbanda coincide com as mudanças sociais e políticas ocorridas na década de 1930 e com a ditadura nacionalista e populista de Getúlio Vargas (1930 a 1945). Segundo Diana Brown, a escolha pela umbanda de símbolos como os caboclos e pretos-velhos foi influenciada pelo "intenso nacionalismo do regime de Vargas e pelo seu esforço de criar uma cultura nacional como base para a unificação do povo brasileiro".

A valorização dos índios e escravos gerou a idéia de que a umbanda é a única religião genuinamente brasileira, o que é contestado por vários estudiosos. O antropólogo Émerson Giumbelli lembra que na década de 30, quando a umbanda se consolidou, várias religiões surgiam ou se afirmavam com o mesmo caráter nacionalista.

Giumbelli cita os casos do kardecismo, com o lançamento em 1938 do livro que tornou conhecido o médium Chico Xavier [1910-2002], "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", e o Santo Daime, criado no Acre.

Mesmo identificados com as diretrizes do governo Vargas, os umbandistas foram perseguidos durante o Estado Novo. O Museu da Polícia, no Rio, guarda uma coleção de cerca de 200 imagens, vestes, guias e objetos dos cultos apreendidos naquela época.

O acervo, tombado, está guardado em armários de aço no prédio de 1910 da rua da Relação (centro) onde funcionou a Polícia Central do Distrito Federal e, na ditadura militar, o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). A Coleção de Cultos Afros foi durante muitas décadas identificada como Coleção de Magia Negra.

As primeiras federações umbandistas foram criadas para enfrentar a discriminação social e a repressão policial.

Uma vítima famosa da polícia foi Euclides Barbosa (1909-88), precursor da umbanda em São Paulo. Mais conhecido pelo apelido de Jaú, poucos pais-de-santo apanharam tanto e foram presos tantas vezes quanto ele, a ponto de ser considerado por alguns líderes "o grande mártir" da religião.

Antes de ser pai-de-santo, Jaú se tornou conhecido como zagueiro do Corinthians (1932-37) e da seleção brasileira que disputou a Copa de Mundo de 1938 na França.
Um dos idealizadores das festas de Iemanjá no litoral paulista no final da década de 1950, Jaú foi perseguido durante anos pela Guarda Civil, e há relatos de torturas e humilhações públicas que sofreu.

Os anos dourados

A umbanda começou a respirar na década de 1950, mas não por muito tempo. A redemocratização do país, em 1945, propiciou o ambiente de liberdade religiosa. Em 1953 foram criadas em São Paulo as duas primeiras federações umbandistas (no Rio, já existia uma desde 1939, fundada por Zélio de Moraes). Em 1964, caiu a exigência de registro obrigatório dos terreiros na polícia, e foi mantido apenas o registro civil em cartórios públicos.

Levantamento feito pelos antropólogos Lísias Nogueira Negrão e Maria Helena Concone mostra que, na década de 1940, em São Paulo, apenas 58 terreiros umbandistas se registraram nos cartórios, para 803 que se declararam espíritas.

Na década de 1950, a proporção se inverteu: 1.025 terreiros se assumiam de umbanda contra 845 centros espíritas e apenas um terreiro de candomblé. O apogeu ocorreu na década de 1970, quando foram registrados 7.627 terreiros de umbanda, 856 de candomblé e 202 centros espíritas.

A perseguição policial arrefeceu, mas não terminou, com o fim da ditadura de Vargas.

Na década de 1950, eles ganharam um novo inimigo igualmente forte, a Igreja Católica. A campanha religiosa nos púlpitos e na imprensa só diminuiu depois do Concílio Vaticano 2º (1962-65), mas a trégua foi curta. A partir da década de 1970, eles passaram a ser perseguidos com um vigor ainda maior pelos seguidores das novas religiões pentecostais.

Os umbandistas têm recorrido à Justiça contra a intolerância. A ação mais importante, patrocinada pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo, foi ganha em 2005 na Justiça Federal contra as redes Record e Mulher, ambas da Igreja Universal, e aguarda manifestação do Superior Tribunal de Justiça. O Ministério Público denunciou os programas que enfocaram "de maneira negativa e discriminatória as religiões afro-brasileiras".

No Rio, a ação das igrejas neopentecostais foi fulminante nas favelas. No morro Dona Marta, zona sul, funcionaram, até meados da década de 1980, seis terreiros de umbanda, um de candomblé e um de espiritismo de mesa.

Todos acabaram, e hoje é esse o número de templos de igrejas neopentecostais.
No censo de 2000, 432 mil brasileiros se declararam umbandistas, uma queda de 20% em relação ao censo de 1991. A tendência de queda é real, mas é bem provável que o número de fiéis seja bem maior porque muitos não se declaram publicamente por medo ou vergonha. Muitos freqüentadores procuram os centros para conselhos ou curas, mas não se consideram umbandistas.

Apesar disso, a religião parece forte e renovada em cidades como São Paulo -segunda capital em número de seguidores, depois do Rio- e Porto Alegre, matriz da expansão da umbanda para o Uruguai e a Argentina a partir da década de 1970.



O novo preto velho

Autora de obra pioneira, a antropóloga americana Diana Brown afirma que a umbanda não é kitsch nem folclórica, mas, sim, religião de classe média.


DA SUCURSAL DO RIO

A antropóloga norte-americana Diana Brown discorda dos que vêem na umbanda um símbolo do subdesenvolvimento brasileiro. Ela desembarcou no Rio em 1966 e foi morar numa favela, durante cinco meses, para estudar um movimento que supunha ser de negros pobres, mas logo descobriu que era uma iniciativa criada e dominada pela classe média. Pioneira no estudo da umbanda no Brasil, Brown é professora da Universidade Columbia, em Nova York. Seu livro "Umbanda - Politics of an Urban Religious Movement", de 1974, não foi até hoje traduzido para o português. (MB)

FOLHA - Por que decidiu estudar o Brasil e a Umbanda?

DIANA BROWN - A primeira vez em que estive no Brasil foi em 1966. Era aluna de antropologia e fazia o doutorado na Columbia. Naquele tempo, havia muito interesse pelo Brasil e por cursos com professores como Charles Wagley and Marvin Harris, que fizeram várias pesquisas no Brasil. Foi assim que tomei conhecimento pela primeira vez do que chamavam cultos afro-brasileiros. Eu me interessei, estudei português e li todos os trabalhos que havia na biblioteca, como Nina Rodrigues, João do Rio, Arthur Ramos, Luiz Costa Pinto, René Ribeiro, Roger Bastide, Ruth Landes. Naquela época, o departamento de antropologia da Columbia, como aqueles da maioria das universidades americanas e brasileiras, estava fortemente influenciada pelo modelo de modernização. Por esse modelo, as religiões de influência africana deveriam estar em declínio e desaparecendo no Brasil. Isso porque, supostamente, faziam parte do setor tradicional ou atrasado da sociedade, que estava se transformando numa sociedade moderna. Meus professores diziam que eu só encontraria a umbanda nos setores menos modernizados, mais pobres e menos escolarizados. Por isso, me orientaram a situar a pesquisa numa favela. Em 1966, consegui uma bolsa da Fundação Ford e fui morar e estudar a umbanda durante cinco meses no Jacarezinho, na zona norte, então uma das maiores favelas do Rio. No fim da primeira semana, me encontrei com um general reformado do Exército que era líder de uma das federações umbandistas. Cada fio da favela que eu seguia acabava em pessoas da classe média. Assim, resolvi fazer a pesquisa sobre a classe média na umbanda.

FOLHA - Por que a umbanda, e não o candomblé ou outra religião?

BROWN - Naquele momento, todo mundo se interessava pelo candomblé e desprezava a umbanda por ter se misturado com outras religiões. O puro é que era considerado bom e autêntico. Ainda hoje persiste essa idéia. Alguns colocam o candomblé como cultura popular autêntica e a umbanda como kitsch. Não concordo com isso, acho que a imagem de autenticidade é uma construção social. Achei e ainda acho a umbanda autêntica. Os umbandistas me receberam muitíssimo bem, os acadêmicos não. Alguns diziam: por que você veio estudar a umbanda, que é um símbolo do nosso subdesenvolvimento? Outra reação foi a de que a umbanda era uma religião que não valia a pena estudar, que era folclore. Hoje, a imagem da umbanda mudou, mas nem tanto. Ela ainda carrega traços dessa vergonha.

FOLHA - Qual era o contexto do surgimento da umbanda?

BROWN - Havia muito preconceito, mas muita gente a praticava. A imagem era de classe baixa e ignorante. O grupo que começou a promover a umbanda branca tinha um background kardecista. Eles se achavam, por isso, protegidos e legitimados. Mas havia muito preconceito e perseguição. Embora Getúlio Vargas fosse conhecido como "pai dos pobres" e "pai da umbanda" e, em 1966, muitos terreiros que visitei ainda tivessem retratos dele, ficou evidente que ele deixou a polícia invadir os terreiros e foi tudo muito brutal.

FOLHA - Qual o papel do Zélio de Moraes na construção da umbanda?

BROWN - Ele e seu grupo conseguiram promover a imagem dessa umbanda que foi chamada de umbanda branca. Foi um esforço para embranquecer e modernizá-la. O papel dele é simbólico, foi o porta-voz dessa "nova" umbanda.

FOLHA - O fato de ele ter recebido em 1908 o Caboclo das Sete Encruzilhadas significou uma ruptura com o kardecismo?

BROWN - Eu não diria isso. Para ele [Zélio de Moraes] foi uma ruptura, mas era mais uma expressão do ecletismo que já existia. Foi esse caboclo quem falou para o Zélio que ele seria o fundador, mas antes já existiam caboclos e a prática de religiões africanas. Era uma grande mistura.

FOLHA - O Censo 2000 mostrou queda no número de umbandistas.

BROWN - A expansão da umbanda foi impulsionada em parte pelo tipo de política populista do período antes de 1964. Havia procissões enormes em Copacabana e grande envolvimento de políticos até o final dos anos 1960. Eu imaginava que continuaria a crescer. Reginaldo Prandi e outros [estudiosos] falam que houve um contrabalanço e uma tendência a se africanizar. A imagem de embranquecimento que eu enfrentei era ambígua: era uma tentativa de se europeizar e se elitizar. É mais do que [uma questão] racial, era uma metáfora para a vida moderna. O que significa a África? Eu vejo a africanização também de maneira ambígua: como uma referência à herança africana e também como uma metáfora para o exótico, o autêntico e o poder espiritual. As classes médias e as elites sempre procuram o que consideram "autêntico" na cultura popular, como o jazz nos Estados Unidos, o samba ou o Carnaval no Brasil, que começaram entre os setores pobres e foram se transformando em coisas da elite.

FOLHA - Você achava que a umbanda tinha a cara do brasileiro. Ainda acha?

BROWN - Não. Para os fiéis, era uma expressão forte do nacionalismo cultural. Ela foi promovida, durante um momento muito freiriano [referência a Gilberto Freire], como a única religião genuinamente brasileira. Mas esse momento passou, e essa imagem nunca teve âmbito nacional. No âmbito da cultura popular, o Carnaval define muito mais o brasileiro do que a umbanda.

FOLHA - O que é umbanda?

BROWN - É uma religião que trata com espíritos, que são muitos e têm a capacidade de intervir na vida cotidiana das pessoas. E podem intervir para o bem ou para o mal. Os rituais celebram os espíritos, que se manifestam e conduzem os trabalhos de cura e de orientação para os problemas. A maioria das pessoas que freqüentam a umbanda foi levada pelo sofrimento. No campo simbólico, você tem dois grupos subalternos, os índios e os escravizados, que são celebrados como personagens de alta importância. Há uma mistura com catolicismo, kardecismo, uma variedade muito grande de práticas, e há sobretudo uma imagem de caridade. Mas há também os terreiros que trabalham com Exu e que fazem o que as pessoas querem, para o bem ou para o mal. São a ala menos aceita pelos umbandistas declarados, mas talvez seja a mais forte.

FOLHA - Você chegou a simpatizar com a umbanda?

BROWN - Eu me criei numa família protestante, mas larguei o protestantismo e não tenho muita crença. Para mim, a umbanda tem a mesma validade de outras religiões, talvez um pouquinho mais. Não posso dizer que acredito nos espíritos, mas também não posso negar tudo que eu vi acontecer nos terreiros. Seja qual for a causa, funciona muito bem: ela cura, trata e cuida.



Autor de livro critica critica afastamento da umbanda das raízes africanas


MARCELO BERABA
da Folha de S.Paulo, no Rio

O escritor e compositor popular Nei Lopes critica o afastamento de setores da umbanda das raízes africanas. "Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica", diz.

"É como se seus praticantes dissessem: 'Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados'. Nessa oposição entre 'selvagem' e 'civilizado' é que está o racismo".

Nei Lopes é o autor da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" (Selo Negro Edições).

Folha- Como analisa a formação da umbanda?

Nei Lopes- O mito de origem da umbanda, na versão que tem como protagonista o médium Zélio de Moraes, é exemplar. Ele evidencia a busca de inserção dos despossuídos da sociedade brasileira no espaço religioso.Todo mito tem um fundo de verdade, que os eruditos chamam de "mitologema"; e, na história da umbanda, esse fundo é o episódio do médium Zélio.

Mas antes já havia, além dos calundus coloniais, que não tinham organização social, comunitária, os candomblés, organizados, como se sabe hoje, desde antes de 1850. Na virada para o século 19, a ialorixá baiana Mãe Aninha vinha de vez em quando ao Rio, onde inclusive fundou, por volta de 1906, uma filial de sua "roça", o Opô Afonjá, que funciona até hoje em Coelho da Rocha, São João de Meriti [Baixada Fluminense].

E a umbanda, herdeira direta de cultos bantos como o da cabula, cresceu certamente sob a influência desse prestígio do candomblé baiano, incorporando as figuras dos orixás jeje-nagôs e outros elementos.

Mas o que fundamentalmente distingue a umbanda é o culto aos pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique (África centro-ocidental e oriental), daí seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda. O candomblé vem do Benin, da Nigéria, da África ocidental.

Folha- Como o sr. se define sob o ponto de vista religioso?

Lopes- Minha mãe recebia uma preta-velha, mas não era umbandista. Nós tínhamos lá em casa nosso culto doméstico. Hoje eu cultuo orixás. Mas não sou candomblecista, como aliás já fui. Eu me dedico à forma de culto que em Cuba se conhece como santeria, que inclusive já tem muitos adeptos no Brasil. E cultuo esses orixás na minha casa. A definição, então, não é fácil. E por isso eu proponho que o IBGE inclua tudo na rubrica "religião africana", ou "religião de matriz africana", onde a umbanda, por ser cada vez mais sincrética, talvez já não caiba mais.

Folha- Qual é a diferença que o sr. distingue entre o candomblé e a santeria cubana?

Lopes- As diferenças são poucas, mas significativas. Restringem-se quase exclusivamente a particularidades litúrgicas, uso de instrumentos (aqui atabaques daomeanos, percutidos entre as pernas do tocador; lá, batás nigerianos, levados a tiracolo); diferenças nos elementos que compõem os assentamentos dos orixás etc.

E é tudo uma questão de procedência: o candomblé da Bahia é basicamente um produto de Quêto, um reino localizado no atual Benin, antigo Daomé; e a santería cubana vem de Oyó, um outro reino, de onde parece ter vindo, também, o xangô de Pernambuco, que guarda muito mais semelhanças com a santeria que com o candomblé, principalmente no destaque que dá ao culto de Orumilá ou Ifá, o grande orixá do saber, do conhecimento, dono do Oráculo, em torno do qual gravita todo o conhecimento sobre os outros orixás iorubanos (nagôs, lucumis, ijexás etc.), sua mitologia e a liturgia do seu culto.

Folha- A umbanda aparentemente vem perdendo espaço para outras religiões. O sr. tem essa percepção?

Lopes- Todas as religiões de matriz africana vêm perdendo espaço para a truculência neopentecostal. Truculência que chega à agressão física, como na Bahia.

Folha- Muita gente que freqüenta centros não se declara umbandista. Por que será? Por medo? Vergonha?

Lopes- Essa ocultação é conseqüência do racismo brasileiro. A maioria das pessoas tem vergonha de assumir alguma coisa que remeta à África, à escravidão. Cultura negra só se for desafricanizada... é aí que a gente chega a uma coisa interessante. Existe uma vertente da umbanda que inclusive nega a origem africana da religião, buscando suas raízes na Índia.

Tentam até provar que o nome umbanda (que deriva do quimbundo mbanda, ritualista, curandeiro) vem do sânscrito. Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica; e é ela que vem se expandindo pela América do Sul e pelo mundo. É como se seus praticantes dissessem: "Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados". Nessa oposição entre "selvagem" e "civilizado" é que está o racismo. Então, a intenção dos espíritos acolhidos pelo médium Zélio Moraes há cem anos parece que está se frustrando.


Cronologia

1888
Abolição da escravatura

1889
Proclamação da República

1891
1ª Constituição da República separa Igreja e Estado

1908
Zélio Fernandino de Moraes recebe o Caboclo das Sete Encruzilhadas em São Gonçalo (RJ)

1920
Em meados da década, é fundado o primeiro terreiro de Umbanda, o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, no Rio de Janeiro

1930
Ascensão de Getúlio Vargas e intensificação da repressão policial

1934
Lei determina que templos de religiões como a umbanda sejam registradas no Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio. Em Recife, Gilberto Freyre organiza o Congresso de Religiões Afro-Brasileiras

1939
Fundação, no Rio, da primeira federação umbandista, a União Espírita da Umbanda do Brasil

1941
1º Congresso do Espiritismo de Umbanda, no Rio

1975
Morte de Zélio de Moraes