quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

RAMATIS E A UMBANDA

Por Alexandre Cumino

Ramatis é o nome da entidade, de origem oriental, que psicografava por Her­cílio Maes, tinha uma proposta espírita/kardecista, no entanto por abordar ques­tões como a Magia (Magia de Redenção), a Vida no Planeta Marte, a Vida de Jesus (O Sublime Peregrino) e a Umbanda tornou-se um autor polêmico no meio espírita, aceito apenas por adeptos menos ortodoxos.

É o mesmo caso da obra de Rochester, na pena da médium russa Wera Krijanowskaia, final do séc. XIX, que enfren­ta a mesma polêmica por adentrar o mundo do fantástico e da magia.

No Livro dos Espíritos Kardec é claro no que se refere a magia como vemos abaixo:

551. Pode um homem mau, com o auxilio de um mau Espírito que lhe seja dedicado, fazer mal ao seu próximo?

“Não; Deus não o permitiria.”

553. Que efeito podem produzir as fórmulas e prática mediante as quais pessoas há que pretendem dispor do concurso dos Espíritos?

“O efeito de torná-las ridículas, se pro­cedem de boa-fé. No caso contrário, são tratantes que merecem castigo. Todas as fórmulas são mera charlatanaria. Não há palavra sacramental nenhuma, ne­nhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquan­to estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.”

a) – Mas, não é exato que alguns Espí­ritos têm ditado, eles próprios, fór­mulas cabalísticas?” Efetivamente, Espí­ritos há que indicam sinais, palavras es­tranhas, ou prescrevem a prática de atos, por meio dos quais se fazem chamados conjuros. Mas, ficai certos de que são espíritos que de vós outros escarnecem e zombam da vossa credulidade.”

Se para o Espiritismo radical estes autores não se enquadram inteiramente na codificação de Kardec, onde a magia é colocada de lado, no entanto foram lidos e apreciados por umban­distas, que sempre buscaram explicações para sua religião e sua magia á luz do Espiritismo.

Numa outra oportunidade podemos analisar a magia de Ramatis e Rochester, aqui va­mos buscar algumas conside­rações de Ramatis sobre a Um­banda na obra Missão do Espi­ritismo, concluída em 1967, onde tece elucidações sobre o Espiri­tis­mo em comparação com ou­tras religiões e filosofias.

O maior de todos os capítulos é justamente dedicado a Umbanda, com 69 pá­ginas (Rio de Janeiro: Ed. Livraria Freitas Bas­tos, 1996). Vejamos al­gumas destas conside­ra­ções feitas por Ramatis lembrando que ele escreve à partir de sua época e con­texto:

A Umbanda é como um grande edifício sem controle de condomínio, onde cada inquilino vive a seu modo e faz o seu entulho! Em conseqüência, o edifício mostra em sua fachada a desor­ganização que ainda lhe vai por dentro! As mais excêntricas cores decoram as ja­nelas ao gosto pessoal de cada mora­dor; ali existem roupas a secar, enfeites exóticos, folhagens agressivas, bandei­ras, cortinas, lixo, caixotes, flores, vasos, gatos, cães, papagaios e gaiolas de pás­saros numa desordem ostensiva. De­bruçam-se nas janelas criaturas de toda cor, raça, índole, cultura, moral, condição social e situação econômica, enquanto ainda chega gente nova trazendo novo acervo de costumes, gostos, tempera­mentos e preocupações, que em breve tentam impor aos demais.

Malgrado a barrafunda existente, nem por isso é aconselhável dinamitar o edifício ou embargá-lo, impedindo-o de servir a tanta gente em busca de um abrigo e consolo para viver a sua expe­riência humana. Evidentemente, é bem mais lógico e sensato firmar as diretrizes que possam organizar a vivência provei­tosa de todos os moradores me comum, através de leis e regulamentos formulados pela direção central do edifício, e destinados a manter a disciplina, o bom-gosto e a harmonia desejáveis! (p.130-132)

É provável que alguns entendidos do hermetismo egípcio e da escolástica hindús pretendam provar que a atual doutrina umbandística provenha diretamente do sentido original e iniciático de Umbanda, como a “Lei Maior Divina” subentendida nas velhas iniciações. Mas a ver­dade é que entre os africanos, a sonância de tal palavra nada tinha de iniciática ou signi­ficação de legislação cósmica; porém, abrangia a vulgari­dade das práticas mediúnicas feti­chistas , no intercâmbio ritua­lís­tico com espíritos primários e elementais da natureza, assim como toda sorte de sortilégios, crendices e cultos aos mortos!

(...) Assim, as relações mediúnicas com espíritos de índios, caboclos, pretos e congêneres, nas prá­tica ritualísticas dos ter­reiros e conhecidas como de Umbanda, só significam seita, doutrina ou movimento religioso com atividades mediúnicas de origem africana, num sen­tido exclusiva­mente benfei­tor e oposto ao que se presume ser Quimbanda!

Apesar do louvável empenho dos umbandistas em atribuírem a origem de sua seita a fontes iniciáticas do Egito, da Caldéia ou da Índia, o certo é que a dou­trina de Umbanda, atualmente praticada no Brasil, deriva fundamentalmente do culto religioso da raça negra da velha África. Os seus princípios doutrinários não se vin­culam à magia ou escolástica de qualquer ramo iniciático ou bastardo das religiões e cultos egípcios, hindus, caldaicos, assírios ou gregos. Eles são realmente frutos do “folclore”, dos provérbios, aforismos, das lendas, crenças populares, canções e tradições do negro africano. O vínculo do negro persiste implacável, apesar da penetração do branco e das tentativas dos ocidentais considerarem a Umbanda uma seita exclusivamente originária de antigas confrarias do Oriente.(p.136)

Indubitavelmente, a Umbanda, como seita, ainda não passa de uma aspiração religiosa algo entontecida , mas buscando sinceramente uma forma de elevada representação no mundo. Não apresenta uma unidade doutrinária e ritualística conveniente, porque todo “terreiro” adota um modo particular de operar e cada chefe ou diretor ainda se preocupa em mono­polizar os ensinamentos pelo crivo de convicção ou preferência pessoal. Mas o que parece um mal indesejável, é conse­qüência natural da própria multiplicidade de formas, labores e concepções que se acumulam prodigamente no alicerce fundamental da Umbanda!

Aqueles que censuram essa insta­bilidade muito própria da riqueza e variedade de elementos formativos umbandísticos, são maus críticos, que devido à facilidade de colherem frutos sazonados em numa laranjeira crescida, não admitem a dificuldade do vizinho ainda no processo de semeadura!(p.130)

(...) Apesar dessa aparência doutri­nária heterogênea, existe uma estrutura básica e fundamental que sustenta a integridade da Umbanda, assim como um edifício sob a mais flagrante anarquia dos seus mora­dores mantém-se indestrutível pela garantia do arcabouço de aço!

Da mesma forma, o edifício da Um­ban­da, na Terra, continua indeformável em suas “linhas mestras”...(p.131)

(...) Os mentores da Umbanda, no momento, preocupam-se em eliminar as práticas obsoletas , ridículas, dispersivas e até censuráveis, que ainda exercem os umbandistas alheios aos fundamentos e objetivo espiritual da doutrina. Sem dú­vida, uns adotam excrecências inúteis e abu­sivas no rito e características doutri­nárias de Umbanda, por ignorância, alguns por ingenuidade e outros até por vaidade ou interesse de impressionar o público! Inúmeras prática que, de inicio, serviram para dar o colorido doutrinário, já podem ser abolidas em favor do progresso e higienização dos “terreiros”!(p.132)

Esta é a palavra de Ramatis, direta e franca sob o seu ponto de vista, escrito na década de 60, ainda hoje encontramos muito o que ele critica na postura do umbandista e faço crer que estamos caminhando para uma melhora no sentido de entender o que é e como praticar a Umbanda.

Muito provavelmente não vamos caminhar para uma unidade doutrinária de Umbanda, no entanto é possível caminharmos para uma conscientização do que é a pratica de Umbanda.

O Consenso da data de 15 de No­vembro de 2008 como centenário da Umbanda já apresenta um grande progresso, pois possibilita remontar a história material da Umbanda no Brasil, independente de suas origens culturais, espirituais e míticas.

Já não se fala mais em seita ou movimento umbandista, a Um­banda é uma religião concreta, nova e brasileira.

Assim como o cristianismo tem vários segmentos cristãos (Catolicismo, Luteranismo, Metodista, Presbiteriano, Pentecostal etc.) a Umbanda também tem linhas doutrinárias variadas que muitas vezes se definem como Umbanda Branca, Umbanda Esotérica, Umbanda Trançada, Umbanda de Caboclo e outras, no entanto existe o que Ramatis chamou de estrutura básica e fundamental que sustenta a integridade da Umbanda que é em si a essência da Umbanda, onde se alicerçam os estudos Teológicos de Umbanda como ponto de partida ou paradigma para entender suas várias, outras, expressões.

A imagem acima foi retirada do site:

http://www.imagick.org.br/pagmag/turma2/mRamatis.jpg

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Filha de Olorum

E sua majestosa voz ecoou pelo alto, pelo embaixo, pela esquerda e a direita, pelo a frente e o atrás, pelo envolta. Por determinação do pai - mãe de Todos, uma nova religião nasceria sob solo brasileiro. Era sua filha mais nova, a Umbanda.

E um verdadeiro rebuliço começou no Orum, pois logo o mais respeitado dos Orixás se ergueu de seu Trono e disse que ele seria o responsável e sustentador maior da religião. Oxalá abençoava o nascer da mais nova filha de Olorum, e a assumia dos Seus Divinos Braços. Nela a espiritualidade e a fé estariam presentes, como aceleradora da evolução de todos. Não existiriam dogmas, e apenas um grande fundamento: Amor e Caridade.

E logo começaram a chegar os Orixás, todos também abençoando e apadrinhando a nova filha de Olorum. Ogum e Iansã, os mais emocionados de todos, diziam que protegeriam a nova religião com as armas da Lei.

E então a voz trovão de Xangô ecoou, pelos quatro cantos do Orum, dizendo que ele seria a Justiça a favor de todos. Sua palavra seria Lei e os filhos de Umbanda nada temeriam, pois todos são filhos de Rei, o Rei Xangô.

Também apresentou a todos sua mais nova esposa, Egunitá a quente irmã mais nova de Iansã. Ela que era “fogo puro” encantou a todos e disse que protegeria a Umbanda.

E assim a filha mais nova de Olorum ganhou seus dois padrinhos: a Lei Maior e a Justiça Divina.

Mas algo engraçado aconteceu. Muitos espíritos vindos de um dos muitos bairros do Orum, Aruanda, disseram que eles seriam os trabalhadores e a linha de frente da religião, além de assumirem a condução dos médiuns umbandistas.

Oxalá que é o senhor das formas e pai da Umbanda, consentiu e determinou que por homenagem ao povo negro e indígena, todos assumissem a forma de Caboclos e Pretos - velhos.
E logo chegou Oxossi de uma de suas muitas caçadas e assumiu toda a linha de Caboclos, tornando-se o Rei dos Caçadores. Distribuiu um diadema que os caboclos trazem até hoje, o diadema ganho do Rei das Matas.

E o velho Obaluayê junto de Nanã, abençoou todos os espíritos anciões que se consagravam ao trabalho da linha de pretos-velhos. Concedeu a eles a sabedoria que só o passar do tempo pode conceder. E todos se transformaram em ótimos conselheiros e curadores, principalmente das chagas da alma.

E por falar em tempo, ele também estaria presente. Oiá-Tempo (xará de Iansã–Oiá), seria responsável pelas forças do tempo dentro da nova religião. E como ela é muito observadora e vamos dizer bastante desconfiada, seria a guardiã da fé e dos processos da religiosidade. E "ai" de quem pisasse na bola da religiosidade. Lá estaria Oiá com seu olhar congelante...

Iemanjá que é uma “mãezona" queria que todos espíritos que se manifestassem para a caridade pudessem ser aceitos no ritual, sabe como é, "em coração de mãe sempre cabe mais um". E assim ficou decidido, pois ninguém tem coragem de negar um pedido da encantadora Rainha do Mar. E a Umbanda acolheria a todos, caso viessem para prestar a caridade. Surgia então, as muitas linhas de trabalho, como baianos, marinheiros, boiadeiros e os muitas vezes renegados pelo próprio povo de origem, os ciganos...

E de repente apareceu Oxum, perguntando que festa era aquela. Quando ficou sabendo que era o nascimento da mais nova filha de Olorum, começou a chorar e a abençoou com suas lágrimas que caíam de seus olhos como duas enormes cachoeiras. (ela é muito chorona, mas não gosta que a gente fale sobre isso...)

E de presente a ela, chamou Oxumaré, que transformou tudo em cores e disse que renovaria e embelezaria tudo com seu axé colorido.

E junto do seu arco–íris vieram os encantados da natureza, as crianças que seriam a alegria da Umbanda.

O “time” estava quase completo, quando da terra surgiu o amado Tatá Omulú e Obá. Não muito sorridentes, para falar a verdade bem sérios e um pouco secos, disseram que também fariam parte da nova religião. Que queriam ver seus cultos renovados, e que seriam a força do elemento terra. Obá que depois de muitas desilusões, nada mais queria com Xangô, resolveu unir–se a Oxossi, e ajudá–lo a disseminar o conhecimento.

Omulu que é muito calado colocou–se do lado de Iemanjá, dizendo que a guardaria por todo o sempre. Na verdade até umas lágrimas foram vistas cair de seus olhos, negros como a noite. Ele é meio incompreendido, mas quem o conhece sabe que é o mais amoroso dos Orixás.

Todos estavam comemorando, quando não sabe-se direito porque, uma confusão começou, e ninguém mais sabia o que iria fazer. Oxalá que muitas vezes já tinha sido enganado por “ele”, não seria novamente. Logo disse:

_ Laroiê Exu! Você também é convidado a participar da nova religião. Será responsável pela esquerda de todos. Mas vai ter que seguir as Leis de Xangô e será acompanhado de perto por seu querido irmão Ogum!

Uma gargalhada soou por todo Orum e Exu apareceu. Junto dele a mais bela moça, Pombagira. Exu ficou feliz, disse que agora teria Pombagira para dividir seu trabalho, mas que não abriria mão de ser sempre o primeiro a ser firmado. Não porque ele era aparecido, mas sim porque era ele quem guardaria os templos e casas de Umbanda.

E muito esperto que era, disse:

_ Olha, eu vou supervisionar o trabalho junto com Pombagira. Mas vou deixar uns espíritos trabalhando com a minha força fazer o trabalho. Afinal o que o homem faz, o homem que desfaça. E também o meu irmão Oxossi é senhor da linha de caboclos, porque eu não posso ser senhor da Linha de Exu?

Bom, começaram umas discussões, mas acabou acertado que o Orixá Exu atuaria na Umbanda, a partir de sua linha de trabalho. Seria a linha que faria o trabalho pesado, além de serem os guardiões dos médiuns e dos templos de Umbanda.

E assim todos os Orixás muito emocionados, deram as mãos e começaram a orar pelo sucesso da mais nova filha de Olorum.

E então o Pai e Mãe de Todos se manifestou:

“Meus amados filhos Orixás, a Vós eu consagro minha filha nova e dileta, a Umbanda. Que ela transforme–se em uma religião semeadora de luz, alegria e compaixão. Que seja espiritualista e universalista, que esteja aberta a todos de bom coração”.

“E que em sua pedra fundamental esteja escrito o seu único dogma: Amor e Caridade!”
E de Si Sete intensas irradiações partiram, e envolveram sua filha querida. Todos emocionaram–se e agradeceram a Olorum, por essa benção a humanidade.

Quase cem anos passaram, e a Umbanda cresceu um bocado.

Transformou–se em uma linda jovem, amorosa e alegre. Amparada por seu Pai Oxalá, e seus padrinhos, a Lei Maior e a Justiça Divina, ela vai vencendo todos os obstáculos.

Os seus trabalhadores conquistaram o coração das pessoas. Todos correm para escutar a palavra de sabedoria do preto–velho, ou a conversa pura e alegre da criança.

Os caboclos transformaram–se na linha de frente da Umbanda, trazendo as qualidades dos nossos amados pais e mães Orixás. Onde existe um Pena-Branca, lá está a paz e serenidade de Oxalá. Onde trabalha um Sete-Espadas, está os olhos da Lei.

Exu e Pombagira se fizeram presentes tornando–se sinônimos de proteção e cumprimento da Lei, seja na seriedade do Tranca–Ruas, no olhar penetrante do seu Capa-Preta, ou na força da Rainha Maria Padilha.

Todos os espíritos podem se manifestar para a caridade, como um dia pediu a “mãezona” Iemanjá, surgindo assim a alegria dos muitos “Zés” que trabalham na Umbanda.

E principalmente a Umbanda tornou–se sinônimo de amor e caridade, de luz e evolução espiritual.

Esse texto é apenas uma fábula, uma lenda ou um Itan, que presta também sua homenagem a filha mais nova de Olorum. E um pedido para que enfim as pessoas entendam, que existe algo maior que a “minha” ou “a sua” Umbanda. Simplesmente existe A UMBANDA, filha querida de Olorum, que encanta a todos os Orixás, e enche os olhos do velhinho e amoroso Oxalá de lágrimas de felicidade e amor...

(Sepe, em homenagem a Umbanda, essa linda religião universalista, doada a todos nós pelos amados Pais e Mães Orixás).

domingo, 29 de junho de 2008

Pense

Pense nas grandes massas, ainda sem o acesso ao esclarecimento espiritual.Pense em quantas pessoas estão urdindo, agora mesmo, planos maquiavélicos na intenção de outras pessoas.Pense naqueles que acalentam o ódio no coração e vertem o fel emocional pelo olhar ensandecido de ego.Pense em quantos estudantes espirituais você já viu se afastarem do caminho por causa de questões ridículas, que nada mais eram do que arroubos de personalismo dos envolvidos.Pense em quantas vezes você viu pessoas com excelente potencial espiritual desistirem por causa da falta de empenho e dedicação em seu próprio desenvolvimento.Pense em quantas vezes você viu companheiros emanando farpas psíquicas contra outros colegas de senda espiritual, muitas vezes por questões tolas, que os levaram a projetar formas-pensamento doentias, filhas de seus egos feridos.Pense em quantas vezes você viu colegas encarnados projetando emoções e energias pesadas na direção de alguém e agindo piores do que muitos espíritos desencarnados obsessores.Pense em quantas vezes você viu colegas doutrinando espíritos e pedindo-os para perdoar os adversários, sem que eles mesmos praticassem o perdão que tentavam exigir dos outros.Pense em quantas vezes você viu estudantes espirituais chorando no cemitério por uma perda que nunca existiu, pois eles sabem que ninguém morre.Pense em quantas vezes você viu médiuns com medo de espíritos.Pense em quantas vezes você viu componentes de grupos espirituais faltarem levianamente às reuniões que participavam.Finalmente, pense em quantas oportunidades foram perdidas ao longo da vida, e quantas chances de crescimento espiritual foram deixadas de lado.Pense nas pessoas que se arrastam pela vida apenas sobrevivendo, sem pensar, sem sentir, sem poder levantar o véu das coisas, e sem conseguir sair do atoleiro material ou emocional em que se enfiaram.Pense nisso tudo e erga os pensamentos ao Alto que lhe deu a chance de perceber que há algo a mais do que apenas comer, beber, dormir e copular cegamente pela vida, e agradeça por todas as oportunidades de aprendizado, mesmo aquelas que lhe foram provas difíceis na jornada.Pense que a vida está passando e a morte não tem hora para chegar... Não sabe quanto tempo lhe resta...Pense... E agradeça!

Wagner Borges

terça-feira, 22 de abril de 2008

Olá, os pontos abaixo são aqueles novos que levei para o Trabalho de Fé. Deixo registrado aqui e espero que possamos usá-los mais.


Oxalá

Jurei seguir a Sua luz
Jurei beijar a Santa Cruz
Oxalá, aos Seus pés me dobrarei
E em Seu manto me envolverei
Adorarei aos que encontrar


Iemanjá


Eu fui na areia da praia
Pedir proteção para essa congá
Daí-me forças, minha mãe,
Daí-me forças!
Leve as mágoas pro fundo do mar


Oxum

Oh, minha boa mãe,
Nossa Senhora da Conceição
Oh, minha boa mãe,
Nossa Senhora da Conceição
Nos cubra com seu manto
E daí a Vossa proteção
Nos cubra com seu manto
E daí a Vossa proteção

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Tristeza dos Orixás

Por Fernando Sepe

Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que traz em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas...

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pêlos do corpo. Realmente o Sol tinha escondido-se nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das "guerras", saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu-se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram-se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe "coruja" quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

- Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? - ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

- Desculpe, sabe, ando meio ocupado - Respondeu um triste Ogum.

- Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

- É, vim até aqui para "desabafar" com você "mãeinha". Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a " espada da Lei" que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das "supostas" demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles... Estou cansado...

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o "Orixá da Guerra", um homem impiedoso que utiliza-se de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram "quebras e cortes" de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna-se uma guerra de vaidade, um show "pirotécnico" de forças ocultas. Muita "espada", muito "tridente", muitas "armas", pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

- Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-na em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição.

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado...

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava-se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via-se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia-se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam-se na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso...

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo-se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam-se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram-se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando-o a figura do Diabo:

- Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! - Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.

Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere! - pensou Iemanjá! - Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou-se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

- Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de "apenas" prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras "bases de luz" na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir...

Quando Oxalá calou-se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam-se nesse ideal. E aquilo alegrou-os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos-velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram-se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem - aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam - se. O alto os abençoava...

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo-astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou-se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem-se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem-se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem-se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado. Honrem-los. Sejam luz, assim como Eles!

Exe ê o babá (Salve o Pai Oxalá)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Portal de Defesa da Umbanda e demais cultos Afro-Brasileiros – PDU

Estréia nesta 3ª. feira, 08/04/2008, às 20:00 horas,
o Portal de Defesa da Umbanda e demais cultos
Afro-Brasileiros
PDU — com o debate ao vivo,
sobre a entidade ZÉ PILINTRA, com sacerdotes
de vários seguimentos religiosos.

O portal será: www.pdu.com.br

quarta-feira, 2 de abril de 2008

100 Anos de Umbanda (Folha de S.Paulo)


O Terreiro da Contradição


Umbanda adotou rituais da macumba por serem mais "dramáticos" que os do kardecismo, mas buscou se "desafricanizar" ao rejeitar feitiçarias e matanças

História da religião foi marcada pela hostilização da polícia, da Igreja Católica e de neopentecostais



MARCELO BERABA
DA SUCURSAL DO RIO

A umbanda comemora neste ano seu primeiro centenário. Reconhecida por sua capacidade de assimilar e misturar rituais, crenças e símbolos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, dos cultos africanos, da pajelança indígena, de tradições orientais e, mais recentemente, do esoterismo, ela continua a perseguir os mesmos objetivos de quando foi criada: respeito e reconhecimento social.

A religião ainda é estigmatizada e tem dificuldades de firmar identidade própria e uma imagem positiva -a maioria dos brasileiros ouvidos em 2007 pelo Datafolha acha que a umbanda é coisa do demônio.

Perseguida durante décadas pela polícia, depois pela Igreja Católica e, mais recentemente, pelos evangélicos neopentecostais, ela teve seu apogeu entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1980.

Hoje, sofre um pequeno declínio de seguidores, segundo o censo de 2000, mas está presente em diversos países, é sacudida por movimentos de revitalização, principalmente em São Paulo, e influencia outras religiões.

Espiritismo abrasileirado

No dia 15 de novembro de 1908, exatos 19 anos após a Proclamação da República, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou numa sessão espírita kardecista em Neves, São Gonçalo, município fluminense próximo ao Rio, então capital federal. Foi um escândalo.

A Doutrina Espírita do francês Allan Kardec [pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, 1804-1869] tinha seguidores no Brasil desde 1865.

Embora haja indícios de incorporações de espíritos de índios e de escravos negros nas diversas formas de macumba que existiam no Rio de Janeiro do século 19, os kardecistas não os admitiam por considerá-los espíritos marginais e pouco evoluídos. Quem recebeu o caboclo indesejado, e logo em seguida o preto-velho Pai Antônio, foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz de 17 anos que se preparava para entrar para a Escola Naval.

Os registros daquele episódio variam conforme a fonte.

Em um dos relatos, reproduzido no livro "Umbanda Cristã e Brasileira" (J. Alves Oliveira, 1985), o caboclo teria assim se revelado: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios [caboclos], devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho [o médium Zélio de Moraes] para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou".

Em 1970, Ronaldo Linares, hoje presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, ouviu a história da revelação do próprio Zélio (1891-1975). O espírito se apresentou como caboclo brasileiro e foi contestado por um médium kardecista, que disse que via nele "restos de vestes clericais".

O caboclo então teria explicado: "O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre, meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro".

Quando perguntaram seu nome, respondeu: "Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existirão caminhos fechados. Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos".

A sina da umbanda, desde então, é trabalhar para impedir que os seus caminhos se fechem. A adoção do 15 de novembro como marco da criação da umbanda é uma convenção da década de 1970.

Embora o registro da incorporação seja de 1908, o primeiro terreiro, o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, do mesmo Zélio de Moraes, teria sido criado na década de 1920, e o estatuto que norteou o seu funcionamento e serviu de referência para dezenas de outros terreiros umbandistas que seguiram as orientações ditadas por Zélio é de 1940.

A nova religião nasce de uma aparente contradição.

De um lado, o desejo de se diferenciar das práticas de feitiçaria dos cultos de origem africanos considerados primitivos; do outro, a decisão de abrasileirar os espíritos que se manifestavam por meio dos médiuns, dando espaço de honra aos índios e aos escravos africanos e descendentes.

A umbanda deu os seus primeiros passos no mesmo período em que a sociedade brasileira vivenciava um forte processo de transformação. A hegemonia econômica da agricultura começava a ceder espaço para a nascente industrialização, que trazia consigo novas classes sociais.

A antropóloga norte-americana Diana Brown [leia entrevista na pág. ao lado], pioneira no estudo da umbanda na década de 1960, constatou que os fundadores da religião eram majoritariamente de classe média, insatisfeitos com o espiritismo kardecista que praticavam e observadores dos centros de macumba que funcionavam nas favelas.

"Eles passaram a preferir os espíritos e divindades africanos e indígenas presentes na macumba, considerando-os mais competentes do que os altamente evoluídos espíritos kardecistas na cura e no tratamento de uma gama muito ampla de doenças e outros problemas", escreveu em "Uma História da Umbanda no Rio" (1985).

Os fundadores achavam os rituais da macumba mais "estimulantes e dramáticos" do que as sessões de espiritismo, mas rejeitaram aqueles com matança de animais e incorporação de espíritos que consideravam diabólicos, como os de Exu.

O esforço inicial foi no sentido de desafricanizar a umbanda e "purificá-la". É o espiritismo de umbanda, logo umbanda branca, que adota princípios e ícones do catolicismo, crenças e compromissos do kardecismo (como a mediunidade, a reencarnação e a prática da caridade) e adere à magia e ao culto aos orixás africanos, mas sem a feitiçaria e as matanças da macumba e da quimbanda.

O desafio inicial era como, ao mesmo tempo, incorporar essas aquisições e se diferenciar de suas matrizes. O primeiro terreiro mantém a referência kardecista (Centro Espírita) e homenageia um ícone católico (Nossa Senhora da Piedade).

Décadas de perseguições

Há um fator objetivo para aqueles médiuns tentarem se distinguir da macumba.

Apesar da liberdade religiosa conquistada com a República, o Código Penal de 1890 proibia "praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios". O código de 1942 ainda reprimia os "feiticeiros", mas não todos, apenas os acusados de usarem os seus poderes para o mal, segundo estudos da antropóloga Yvonne Maggie.

Um parêntese: na interpretação de Yvonne Maggie, ao combater a feitiçaria, o código de 1890 de alguma maneira indicava que o Estado e sua elite acreditavam nos poderes sobrenaturais dos feiticeiros e por isso os perseguiam.

A primeira fase de expansão da umbanda coincide com as mudanças sociais e políticas ocorridas na década de 1930 e com a ditadura nacionalista e populista de Getúlio Vargas (1930 a 1945). Segundo Diana Brown, a escolha pela umbanda de símbolos como os caboclos e pretos-velhos foi influenciada pelo "intenso nacionalismo do regime de Vargas e pelo seu esforço de criar uma cultura nacional como base para a unificação do povo brasileiro".

A valorização dos índios e escravos gerou a idéia de que a umbanda é a única religião genuinamente brasileira, o que é contestado por vários estudiosos. O antropólogo Émerson Giumbelli lembra que na década de 30, quando a umbanda se consolidou, várias religiões surgiam ou se afirmavam com o mesmo caráter nacionalista.

Giumbelli cita os casos do kardecismo, com o lançamento em 1938 do livro que tornou conhecido o médium Chico Xavier [1910-2002], "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", e o Santo Daime, criado no Acre.

Mesmo identificados com as diretrizes do governo Vargas, os umbandistas foram perseguidos durante o Estado Novo. O Museu da Polícia, no Rio, guarda uma coleção de cerca de 200 imagens, vestes, guias e objetos dos cultos apreendidos naquela época.

O acervo, tombado, está guardado em armários de aço no prédio de 1910 da rua da Relação (centro) onde funcionou a Polícia Central do Distrito Federal e, na ditadura militar, o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). A Coleção de Cultos Afros foi durante muitas décadas identificada como Coleção de Magia Negra.

As primeiras federações umbandistas foram criadas para enfrentar a discriminação social e a repressão policial.

Uma vítima famosa da polícia foi Euclides Barbosa (1909-88), precursor da umbanda em São Paulo. Mais conhecido pelo apelido de Jaú, poucos pais-de-santo apanharam tanto e foram presos tantas vezes quanto ele, a ponto de ser considerado por alguns líderes "o grande mártir" da religião.

Antes de ser pai-de-santo, Jaú se tornou conhecido como zagueiro do Corinthians (1932-37) e da seleção brasileira que disputou a Copa de Mundo de 1938 na França.
Um dos idealizadores das festas de Iemanjá no litoral paulista no final da década de 1950, Jaú foi perseguido durante anos pela Guarda Civil, e há relatos de torturas e humilhações públicas que sofreu.

Os anos dourados

A umbanda começou a respirar na década de 1950, mas não por muito tempo. A redemocratização do país, em 1945, propiciou o ambiente de liberdade religiosa. Em 1953 foram criadas em São Paulo as duas primeiras federações umbandistas (no Rio, já existia uma desde 1939, fundada por Zélio de Moraes). Em 1964, caiu a exigência de registro obrigatório dos terreiros na polícia, e foi mantido apenas o registro civil em cartórios públicos.

Levantamento feito pelos antropólogos Lísias Nogueira Negrão e Maria Helena Concone mostra que, na década de 1940, em São Paulo, apenas 58 terreiros umbandistas se registraram nos cartórios, para 803 que se declararam espíritas.

Na década de 1950, a proporção se inverteu: 1.025 terreiros se assumiam de umbanda contra 845 centros espíritas e apenas um terreiro de candomblé. O apogeu ocorreu na década de 1970, quando foram registrados 7.627 terreiros de umbanda, 856 de candomblé e 202 centros espíritas.

A perseguição policial arrefeceu, mas não terminou, com o fim da ditadura de Vargas.

Na década de 1950, eles ganharam um novo inimigo igualmente forte, a Igreja Católica. A campanha religiosa nos púlpitos e na imprensa só diminuiu depois do Concílio Vaticano 2º (1962-65), mas a trégua foi curta. A partir da década de 1970, eles passaram a ser perseguidos com um vigor ainda maior pelos seguidores das novas religiões pentecostais.

Os umbandistas têm recorrido à Justiça contra a intolerância. A ação mais importante, patrocinada pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo, foi ganha em 2005 na Justiça Federal contra as redes Record e Mulher, ambas da Igreja Universal, e aguarda manifestação do Superior Tribunal de Justiça. O Ministério Público denunciou os programas que enfocaram "de maneira negativa e discriminatória as religiões afro-brasileiras".

No Rio, a ação das igrejas neopentecostais foi fulminante nas favelas. No morro Dona Marta, zona sul, funcionaram, até meados da década de 1980, seis terreiros de umbanda, um de candomblé e um de espiritismo de mesa.

Todos acabaram, e hoje é esse o número de templos de igrejas neopentecostais.
No censo de 2000, 432 mil brasileiros se declararam umbandistas, uma queda de 20% em relação ao censo de 1991. A tendência de queda é real, mas é bem provável que o número de fiéis seja bem maior porque muitos não se declaram publicamente por medo ou vergonha. Muitos freqüentadores procuram os centros para conselhos ou curas, mas não se consideram umbandistas.

Apesar disso, a religião parece forte e renovada em cidades como São Paulo -segunda capital em número de seguidores, depois do Rio- e Porto Alegre, matriz da expansão da umbanda para o Uruguai e a Argentina a partir da década de 1970.



O novo preto velho

Autora de obra pioneira, a antropóloga americana Diana Brown afirma que a umbanda não é kitsch nem folclórica, mas, sim, religião de classe média.


DA SUCURSAL DO RIO

A antropóloga norte-americana Diana Brown discorda dos que vêem na umbanda um símbolo do subdesenvolvimento brasileiro. Ela desembarcou no Rio em 1966 e foi morar numa favela, durante cinco meses, para estudar um movimento que supunha ser de negros pobres, mas logo descobriu que era uma iniciativa criada e dominada pela classe média. Pioneira no estudo da umbanda no Brasil, Brown é professora da Universidade Columbia, em Nova York. Seu livro "Umbanda - Politics of an Urban Religious Movement", de 1974, não foi até hoje traduzido para o português. (MB)

FOLHA - Por que decidiu estudar o Brasil e a Umbanda?

DIANA BROWN - A primeira vez em que estive no Brasil foi em 1966. Era aluna de antropologia e fazia o doutorado na Columbia. Naquele tempo, havia muito interesse pelo Brasil e por cursos com professores como Charles Wagley and Marvin Harris, que fizeram várias pesquisas no Brasil. Foi assim que tomei conhecimento pela primeira vez do que chamavam cultos afro-brasileiros. Eu me interessei, estudei português e li todos os trabalhos que havia na biblioteca, como Nina Rodrigues, João do Rio, Arthur Ramos, Luiz Costa Pinto, René Ribeiro, Roger Bastide, Ruth Landes. Naquela época, o departamento de antropologia da Columbia, como aqueles da maioria das universidades americanas e brasileiras, estava fortemente influenciada pelo modelo de modernização. Por esse modelo, as religiões de influência africana deveriam estar em declínio e desaparecendo no Brasil. Isso porque, supostamente, faziam parte do setor tradicional ou atrasado da sociedade, que estava se transformando numa sociedade moderna. Meus professores diziam que eu só encontraria a umbanda nos setores menos modernizados, mais pobres e menos escolarizados. Por isso, me orientaram a situar a pesquisa numa favela. Em 1966, consegui uma bolsa da Fundação Ford e fui morar e estudar a umbanda durante cinco meses no Jacarezinho, na zona norte, então uma das maiores favelas do Rio. No fim da primeira semana, me encontrei com um general reformado do Exército que era líder de uma das federações umbandistas. Cada fio da favela que eu seguia acabava em pessoas da classe média. Assim, resolvi fazer a pesquisa sobre a classe média na umbanda.

FOLHA - Por que a umbanda, e não o candomblé ou outra religião?

BROWN - Naquele momento, todo mundo se interessava pelo candomblé e desprezava a umbanda por ter se misturado com outras religiões. O puro é que era considerado bom e autêntico. Ainda hoje persiste essa idéia. Alguns colocam o candomblé como cultura popular autêntica e a umbanda como kitsch. Não concordo com isso, acho que a imagem de autenticidade é uma construção social. Achei e ainda acho a umbanda autêntica. Os umbandistas me receberam muitíssimo bem, os acadêmicos não. Alguns diziam: por que você veio estudar a umbanda, que é um símbolo do nosso subdesenvolvimento? Outra reação foi a de que a umbanda era uma religião que não valia a pena estudar, que era folclore. Hoje, a imagem da umbanda mudou, mas nem tanto. Ela ainda carrega traços dessa vergonha.

FOLHA - Qual era o contexto do surgimento da umbanda?

BROWN - Havia muito preconceito, mas muita gente a praticava. A imagem era de classe baixa e ignorante. O grupo que começou a promover a umbanda branca tinha um background kardecista. Eles se achavam, por isso, protegidos e legitimados. Mas havia muito preconceito e perseguição. Embora Getúlio Vargas fosse conhecido como "pai dos pobres" e "pai da umbanda" e, em 1966, muitos terreiros que visitei ainda tivessem retratos dele, ficou evidente que ele deixou a polícia invadir os terreiros e foi tudo muito brutal.

FOLHA - Qual o papel do Zélio de Moraes na construção da umbanda?

BROWN - Ele e seu grupo conseguiram promover a imagem dessa umbanda que foi chamada de umbanda branca. Foi um esforço para embranquecer e modernizá-la. O papel dele é simbólico, foi o porta-voz dessa "nova" umbanda.

FOLHA - O fato de ele ter recebido em 1908 o Caboclo das Sete Encruzilhadas significou uma ruptura com o kardecismo?

BROWN - Eu não diria isso. Para ele [Zélio de Moraes] foi uma ruptura, mas era mais uma expressão do ecletismo que já existia. Foi esse caboclo quem falou para o Zélio que ele seria o fundador, mas antes já existiam caboclos e a prática de religiões africanas. Era uma grande mistura.

FOLHA - O Censo 2000 mostrou queda no número de umbandistas.

BROWN - A expansão da umbanda foi impulsionada em parte pelo tipo de política populista do período antes de 1964. Havia procissões enormes em Copacabana e grande envolvimento de políticos até o final dos anos 1960. Eu imaginava que continuaria a crescer. Reginaldo Prandi e outros [estudiosos] falam que houve um contrabalanço e uma tendência a se africanizar. A imagem de embranquecimento que eu enfrentei era ambígua: era uma tentativa de se europeizar e se elitizar. É mais do que [uma questão] racial, era uma metáfora para a vida moderna. O que significa a África? Eu vejo a africanização também de maneira ambígua: como uma referência à herança africana e também como uma metáfora para o exótico, o autêntico e o poder espiritual. As classes médias e as elites sempre procuram o que consideram "autêntico" na cultura popular, como o jazz nos Estados Unidos, o samba ou o Carnaval no Brasil, que começaram entre os setores pobres e foram se transformando em coisas da elite.

FOLHA - Você achava que a umbanda tinha a cara do brasileiro. Ainda acha?

BROWN - Não. Para os fiéis, era uma expressão forte do nacionalismo cultural. Ela foi promovida, durante um momento muito freiriano [referência a Gilberto Freire], como a única religião genuinamente brasileira. Mas esse momento passou, e essa imagem nunca teve âmbito nacional. No âmbito da cultura popular, o Carnaval define muito mais o brasileiro do que a umbanda.

FOLHA - O que é umbanda?

BROWN - É uma religião que trata com espíritos, que são muitos e têm a capacidade de intervir na vida cotidiana das pessoas. E podem intervir para o bem ou para o mal. Os rituais celebram os espíritos, que se manifestam e conduzem os trabalhos de cura e de orientação para os problemas. A maioria das pessoas que freqüentam a umbanda foi levada pelo sofrimento. No campo simbólico, você tem dois grupos subalternos, os índios e os escravizados, que são celebrados como personagens de alta importância. Há uma mistura com catolicismo, kardecismo, uma variedade muito grande de práticas, e há sobretudo uma imagem de caridade. Mas há também os terreiros que trabalham com Exu e que fazem o que as pessoas querem, para o bem ou para o mal. São a ala menos aceita pelos umbandistas declarados, mas talvez seja a mais forte.

FOLHA - Você chegou a simpatizar com a umbanda?

BROWN - Eu me criei numa família protestante, mas larguei o protestantismo e não tenho muita crença. Para mim, a umbanda tem a mesma validade de outras religiões, talvez um pouquinho mais. Não posso dizer que acredito nos espíritos, mas também não posso negar tudo que eu vi acontecer nos terreiros. Seja qual for a causa, funciona muito bem: ela cura, trata e cuida.



Autor de livro critica critica afastamento da umbanda das raízes africanas


MARCELO BERABA
da Folha de S.Paulo, no Rio

O escritor e compositor popular Nei Lopes critica o afastamento de setores da umbanda das raízes africanas. "Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica", diz.

"É como se seus praticantes dissessem: 'Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados'. Nessa oposição entre 'selvagem' e 'civilizado' é que está o racismo".

Nei Lopes é o autor da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" (Selo Negro Edições).

Folha- Como analisa a formação da umbanda?

Nei Lopes- O mito de origem da umbanda, na versão que tem como protagonista o médium Zélio de Moraes, é exemplar. Ele evidencia a busca de inserção dos despossuídos da sociedade brasileira no espaço religioso.Todo mito tem um fundo de verdade, que os eruditos chamam de "mitologema"; e, na história da umbanda, esse fundo é o episódio do médium Zélio.

Mas antes já havia, além dos calundus coloniais, que não tinham organização social, comunitária, os candomblés, organizados, como se sabe hoje, desde antes de 1850. Na virada para o século 19, a ialorixá baiana Mãe Aninha vinha de vez em quando ao Rio, onde inclusive fundou, por volta de 1906, uma filial de sua "roça", o Opô Afonjá, que funciona até hoje em Coelho da Rocha, São João de Meriti [Baixada Fluminense].

E a umbanda, herdeira direta de cultos bantos como o da cabula, cresceu certamente sob a influência desse prestígio do candomblé baiano, incorporando as figuras dos orixás jeje-nagôs e outros elementos.

Mas o que fundamentalmente distingue a umbanda é o culto aos pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique (África centro-ocidental e oriental), daí seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda. O candomblé vem do Benin, da Nigéria, da África ocidental.

Folha- Como o sr. se define sob o ponto de vista religioso?

Lopes- Minha mãe recebia uma preta-velha, mas não era umbandista. Nós tínhamos lá em casa nosso culto doméstico. Hoje eu cultuo orixás. Mas não sou candomblecista, como aliás já fui. Eu me dedico à forma de culto que em Cuba se conhece como santeria, que inclusive já tem muitos adeptos no Brasil. E cultuo esses orixás na minha casa. A definição, então, não é fácil. E por isso eu proponho que o IBGE inclua tudo na rubrica "religião africana", ou "religião de matriz africana", onde a umbanda, por ser cada vez mais sincrética, talvez já não caiba mais.

Folha- Qual é a diferença que o sr. distingue entre o candomblé e a santeria cubana?

Lopes- As diferenças são poucas, mas significativas. Restringem-se quase exclusivamente a particularidades litúrgicas, uso de instrumentos (aqui atabaques daomeanos, percutidos entre as pernas do tocador; lá, batás nigerianos, levados a tiracolo); diferenças nos elementos que compõem os assentamentos dos orixás etc.

E é tudo uma questão de procedência: o candomblé da Bahia é basicamente um produto de Quêto, um reino localizado no atual Benin, antigo Daomé; e a santería cubana vem de Oyó, um outro reino, de onde parece ter vindo, também, o xangô de Pernambuco, que guarda muito mais semelhanças com a santeria que com o candomblé, principalmente no destaque que dá ao culto de Orumilá ou Ifá, o grande orixá do saber, do conhecimento, dono do Oráculo, em torno do qual gravita todo o conhecimento sobre os outros orixás iorubanos (nagôs, lucumis, ijexás etc.), sua mitologia e a liturgia do seu culto.

Folha- A umbanda aparentemente vem perdendo espaço para outras religiões. O sr. tem essa percepção?

Lopes- Todas as religiões de matriz africana vêm perdendo espaço para a truculência neopentecostal. Truculência que chega à agressão física, como na Bahia.

Folha- Muita gente que freqüenta centros não se declara umbandista. Por que será? Por medo? Vergonha?

Lopes- Essa ocultação é conseqüência do racismo brasileiro. A maioria das pessoas tem vergonha de assumir alguma coisa que remeta à África, à escravidão. Cultura negra só se for desafricanizada... é aí que a gente chega a uma coisa interessante. Existe uma vertente da umbanda que inclusive nega a origem africana da religião, buscando suas raízes na Índia.

Tentam até provar que o nome umbanda (que deriva do quimbundo mbanda, ritualista, curandeiro) vem do sânscrito. Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica; e é ela que vem se expandindo pela América do Sul e pelo mundo. É como se seus praticantes dissessem: "Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados". Nessa oposição entre "selvagem" e "civilizado" é que está o racismo. Então, a intenção dos espíritos acolhidos pelo médium Zélio Moraes há cem anos parece que está se frustrando.


Cronologia

1888
Abolição da escravatura

1889
Proclamação da República

1891
1ª Constituição da República separa Igreja e Estado

1908
Zélio Fernandino de Moraes recebe o Caboclo das Sete Encruzilhadas em São Gonçalo (RJ)

1920
Em meados da década, é fundado o primeiro terreiro de Umbanda, o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, no Rio de Janeiro

1930
Ascensão de Getúlio Vargas e intensificação da repressão policial

1934
Lei determina que templos de religiões como a umbanda sejam registradas no Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio. Em Recife, Gilberto Freyre organiza o Congresso de Religiões Afro-Brasileiras

1939
Fundação, no Rio, da primeira federação umbandista, a União Espírita da Umbanda do Brasil

1941
1º Congresso do Espiritismo de Umbanda, no Rio

1975
Morte de Zélio de Moraes

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Continuação: letras dos pontos

27. Oxum ,quando canta na beira do rio
Faz um peixe ciscar na areia bis
É o Caboclo da Areia Branca
Que traz o ouro para minha senhora bis
Aiê-iê-ô
Oxum, quando canta na beira do rio
Faz um peixe ciscar na areia bis
A Aruanda já está em festa
Seu Areia Branca ilumina a terra bis
Aiê-iê-o

28. Foi na beira do rio, onde Oxum chorou
Foi na beira do rio, onde Oxum chorou
Chora Ai ê e ô, choram os filhos seus
Chora Ai ê e ô, choram os filhos seus

29. O rio é de Oxum, aiê-iê-o
O lago é de Oxum, aiê-iê-o
Águas de Oxum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê (bis)
Água da cachoeira, aiê-iê-o
Força da cachoeira, aiê-iê-o
Água cristalina, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
Águas de Oxum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
O rio passa na mata, aiê-iê-o
Na pedra uma cascata, aiê-iê-o
Oxóssi e Xangô, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
Águas de Oxum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
Um vento na campina, aiê-iê-o
O rio corta a campina, aiê-iê-o
Iansã e Ogum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
Águas de Oxum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
O rio encontra o mar, aiê-iê-o
Nos braços de Iemanjá, aiê-iê-o
Mãe de Oxalá, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê
Águas de Oxum, aiê-iê-o
Aiê-iê, Oxum, aiê-iê

30. Ela é flor de maio (bis)
Se a minha mãe é uma flor de maio
Aeeieiô é flor de maio
Eu ouvi os prantos da mamãe Oxum
No alto da cachoeira
E ela prantava tanto
Esperando Ogum para jurar bandeira
Olha Oxum no lago, no lago Oxum
Eiei olha Oxum Cachoeira

31. Curimbembê, CurimbembáSete Flechasum grande orixá. (Bis)
Com sete dias de nascidoA Jurema o encontrouDeitado na folha secaO caboclo ela criouCurimbembê, CurimbembáSete Flechasum grande orixá. (Bis)
Nasceu na mata de OxóssiNa aldeia de JuremáO caboclo Sete FlechasIluminado por Oxalá

32. Quando os caboclos,
trazem as folhas da Jurema,
e os Pretos-Velhos
trazem arruda e Guiné.
Eles vêm trabalhar na lei de umbanda, têm licença de Aruanda
pra salvar a quem tem fé. (bis)

Sabíá canta alegre na palmeira,
e Xangô lá na pedreira
os seus filhos vem salvar.
Meu pai Ogum empunhando
a sua espada
com seu toque de alvorada
quando a linha vai chegar. (bis)

33. Lá na pedreira construiu seu trono
Com muitos raios para iluminar
Tem seu machado pra me defender
E um grande leão para me guardar (bis)
Kaô Kaô Kaô kabecile meu pai Xangô (bis)
Com as escrituras, profecia a vida
E o meu destino fui lhe entregar
A minha vida meu pai vai governar
E a sua justiça venho implorar

34. Mulher, mulher
Não tenha medo do seu marido
Se ele é bom na faca, eu sou no facão
Se ele é bom na reza, eu na oração
Se ele diz que sim, eu digo que não
Eu sou Zé Pilintra, ele é Lampião

35. Za za zaBoa noite meus senhores
Za za za boa noite venham cá
Za za za eu me chamo boiadeiro
Za za za aqui em qualquer lugar
Za za za boa noite meus senhores
Za za za boa noite venha cá
Za za za eu me chamo boiadeiro
Za za za não nego meu natural zazazaaaa...

36. Aindoke, eu dei um tiro quero ver zunir
Aindoke, eu dei um tiro quero ver cair

37. Com o meu chapéu de couro
Por Deus abençoado
Ao chegar peço licença
Para entrar nesse reinado (bis)

Ele é da Bahia
Esse baiano vale ouro
Ele é da Bahia
Salve o Seu Chapéu de couro

38. Cadê minha corda
de laçar meu boi
O meu boi fugiu
Eu não sei pra onde foi

39. A menina do sobrado mandou me chamar pelo seu criado
A menina do sobrado mandou me chamar pelo seu criado
Eu mandei dizer a ela estou vaquejando o meu gado
Olô boiadeiro eu gosto de samba arrojado
Olô boiadeiro eu gosto de samba arrojado

continuação: letras dos pontos

15. Ó que barco tão lindo!…Que vem sobre as ondas do mar!…Ele trás as vibrações,De nossa Mãe Yemanjá!…(bis)Yemanjá! Yemanjá!Ela é a Rainha do Mar! (bis)Ó doce Iába !Ó doce Iába !Brilhou, brilhou, brilhou,Brilhou no mar!O manto de nossa Mãe Yemanjá!…(bis)Brilhooouuu!… Brilhou no mar!…O manto de nossa Mãe Yemanjá! (bis)Ó doce Iába !Ó doce Iába !A marola no mar vai levando…Yemanjá é que vai navegando…A marola no mar vai levando…Yemanjá é que vai navegando…(bis)Ó doce Iába !Ó doce Iába !

16. Yemanjá, a Doce Iaba!Yemanjá hoje é seu dia que beleza!Salve a Sereia do Mar!
Lá vou eu pra beira do mar,Levar flores pra Mãe Yemanjá,É a minha oferenda,A Rainha Suprema do Mar. (bis)
Venha comigo irmão,Vamos a beira do mar,É oito de dezembro,Hoje é dia de Mãe Yemanjá.Venha comigo irmão,Vamos a beira do mar,É oito de dezembro,Vamos todos sarava.

17. rema a canoa, marinheiro
rema a canoa, devagar
essa canoa só foi feita para Martin parangola

18. Senhora Santana quando andou pelos montes
Por onde passava deixava uma fonte
Os anjos que vinham beber água dela
Que água tão linda, senhora tão bela

Na coroa de Zambi eu vi Nanã
Auê eu vi Nanã

Eu vi Nanã, eu vi Nanã
E Nanã Buruquê

19. Oh Nanã Buruquê seus filhos lhe pedem, seus filhos lhe imploram
Venha ao meu terreiro levar todo o mal na sua marola
Sarava Nanã auê, sarava Nanã auá
Sarava Nanã na beira do rio e nas ondas do mar

20. Ele é um grande Orixá
Ele é o chefe da Calunga
Ele é seu atotô, Obaluaê
Ele é seu atotô, Obaluaê.

Cadê a chave do baú
Está com o Mestre Omulu

Seu Omulu ê
Seu Omulu é orixá
Sarava seu Omulu
Omulu é orixá

21. Ô filhos de Umbanda
Seu Sete Ondas vem do Humaitá
Que bela surpresa vem de Aruanda nos abençoar
Ô bela surpresa
Bela surpresa como vai você?
Que bela surpresa vem de Aruanda pra nos proteger

22. Ogum guarda a pedreira mandado por Oxalá
Com a espada e com a lança Ogum
Seus filhos vem ajudar

23. Ogum já venceu, já venceu já venceu
Ogum vem de Aruanda e quem lhe manda é Deus
Ele vem beirando o rio ele vem beirando o mar
Salve Santo Antônio da Calunga, Benedito e Beira-mar

24. Vem Beira Rio, Beira Rio, Beira MarO que se ganha de OgumSó Ogum pode tirar !
Seu Ogum de Rondaé quem vem girare vem trazendo folhaspra descarregar !

25. Magia, magia que faz o meu corpo tremer
Magia, magia que chega em silêncio
Sem a gente ver
É o Senhor Ogum
É o rei da magia que vem nos socorrer
É o Senhor Ogum
Quem vence a magia é Ogum Naruê
Ogunhê

26. Oxalá criou a Terra
Oxalá criou o mar
Oxalá criou o mundo
Onde reina os orixás
A pedra deu pra Xangô Meu pai Rei e justiceiro
As matas deu pra Oxossi Caçador velho guerreiro
Grandes campos de batalha Deu pra seu Ogum guerreiro
Campinas, Pai Oxalá Deu para seu boiadeiro
Mar com pescaria farta Ele deu pra Iemanjá
Os rios deu pra Oxum Os ventos para Oyá
Jardins com lindos gramados Deu pras crianças brincar
Oxalá criou o mundo Onde reina os Orixás
O poço deu pra Nanã A mais velha Orixá
E o cruzeiro bendito Deu pras almas trabalhar
Finalmente deu as ruas Com estrelas e luar
Pra Exu e pombogira Nossos caminhos guardar

Continuação: letras dos pontos

7. Mais um adeus aleluia adeus
Mais um adeus, aleluia adeus,
vou pra Jurema,
quem vai-se embora sou eu.

8. Seu boiadeiro por aqui choveu (bis)
Choveu que água rolou
Foi tanta água que seu boi nadou
Na minha boiada me falta boi
Ô me falta um, ô me faltam dois

9. Penso no dia que logo vai nascer
E o meu peito se enche de emoção
A esperança embate o meu ser
Eu sou feliz e gosto de viver.
Pela beleza dos raios da manhã
Eu te saúdo Mamãe Iansa
Pela grandeza das ondas do mar
Me abençoe Mamãe Iemanja
A mata virgem tem seu semeador
Ele é Oxossi Oke Oke Aro!
Na cachoeira eu vou me refazer
Nas águas claras de Oxum ai eio
Se a injustiça faz guerra de poder
Valha-me a espada de Ogum, Ogunhe
Não há doença que venha me vencer
Sou protegido(a) de Abaluae
Eu sou de Paz Mas sou um lutador
A minha lei quem dita é Xangó
A alegria já tem inspiração
Na inocência de Cosme e Damião
Não tenho medo Vou ter medo de que?
Tenho ao meu lado Nanã Boruque
E essa luz que vem de OXALÁ
Tenho certeza vai me iluminar...
Penso no dia que logo vai nascer
E o meu peito se enche de emoção
A esperança embate o meu ser
Eu sou feliz e gosto de viver
Pela beleza dos raios da manhã
Eu te saúdo Mamãe Iansã ...
E essa luz que vem de OXALÁ
Tenho certeza vai nós ILUMINAR!

10. Oh Iansã, o seu manto está tão lindo.
Oh Iansã, a Senhora está sorrindo.
Oh Iansã, o seu Congá é uma beleza.
Oh Iansã, és a deusa da natureza.
Eu vou lhe dar rosa amarela.
Entre as rosas, és a mais bela. (bis)

11. O vento bateu na saia de Iansã
O vento bateu pra Iansã rodar

12. Iansã, orixá de Umbanda
rainha do nosso congá saravá
Iansã lá na Aruanda, Eparrei Eparrei, Iansã venceu demanda
Iansã, saravá pai Xangô no céu o trovão brilhou
e lá na mata o leão bradousaravá Iansã, saravá Xangô. (bis)

13. Eparrei Iansã, Eparrei
Eparrei Iansã aleô
No meio da tempestade,
Entre nuvens e trovões
Iansã e alegria
Ta nos nossos corações

Eu vi Santa Bárbara no céu
Eu vi Santa Bárbara no mar
Eu vi Santa Bárbara na banda
Eu vi ela saravar

Estava numa ladeira sem poder descer
Oh virgem Santa Bárbara venha nos valer
Ela e virgem virgem santa
Ela e virgem virgem mãe
14. Oh moça rica sua espada e luminosa
Sua coroa e cravejada de brilhantes
Levanta ê levanta a
E Santa Bárbara rainha do jacuta

Letras de Pontos: Exu e Pomba-gira

Estão na sequência do CD:

1. Sou Exu, trabalho no canto
Quando canto desmancho quebranto
Sete cordas tem minha viola
Vou na gira De lenço e cartola
Viola é tridente
Cigarro é charuto
Bebida é marafo
Sou Sete da Lira
Derrubo inimigo
Ponteiro de Aço.

2. Seu Exu vai embora
Não se perde no caminho
Passa no quintal dos outros
E não mexe com o vizinho

3. Adeus Pomba-gira adeus
Encruzilhada chama e ela vai oló (bis)
Seu cavalo fica aqui e ela vai numa gira só (bis)
Adeus pomba-gira adeus
A calunga lhe chama e ela vai oló
Seu cavalo fica aqui e ela vai numa gira só (bis)

4. Vinha, caminhando a pé
Para ver se encontrava
Uma linda cigana de fé
Ela parou
E leu minha mão bis
E disse toda a verdade
Mas eu só queria saber onde mora
pomba-gira cigana
Mas eu só queria saber onde mora
pomba-gira cigana

Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira pomba-giraTranca-Rua e Marabô

Oi na beirada do caminho
esse conga tem segurança
oi na porteira tem vigia
meia noite o galo canta

5. De vermelho e negro vestindo a noite o mistério traz,
De colar de conta e brinco dourado a promessa faz,
Se é preciso ir, você pode ir, peça o que quiser
Mas cuidado amigo ela é bonita ela é mulher (bis)
E num canto da rua zombando, zombando, zombando está
Ela é moça bonita girando, girando, girando lá (Bis)
Oi girando lá oiê, Oi girando lá oiá (Bis)

6. Ela gira no ar, ela gira na praça
Ela gira na rua, Ê Ê Ê Ê
Ela canta, ela dança,
ela vive sorrindo em noite de lua
Ela é sincera, ela é de verdade
Cuidado amigo que ela não gosta de falsidade

Evangelho do dia 02/02: Inocenta teu olhar

por Wilson Francisco - wilson153@gmail.com

A inocência é uma grande conquista do espírito humano e lhe confere um poder extraordinário. Inocenta teu olhar, desfazendo o medo e a cumplicidade sórdida e maldosa que incendeia muitos corações. Irradie inocência no olhar e na simplicidade dos gestos, para que a criatura que interage com você tenha absoluta confiança de que você está ao lado, compartilhando ideais e metas.Realize uma visão incontaminada, das pessoas e fatos, atitude muito natural nas crianças. Jung nos fala sobre a criança divina que há em você, e que as feras não atacam, enquanto Jesus, o grande Mestre, nos ensina que o Reino dos Céus pertence aos que vivem a singeleza das crianças.Desarme as pessoas, olhando-as com sinceridade. Você sabe a origem da palavra sincera? Séculos atrás os artesãos fabricavam, no Egito, vasos de cerâmica. Quando a qualidade do produto era total, eles os vendiam sem qualquer polimento, a cera era dispensada. Os compradores, então, exigiam: queremos vasos sem cera (sincera). É isso que a vida pede, atitudes sinceras, sem verniz, nem fantasias.Conta-se que Jesus caminhava pela Terra, quando num trecho da estrada os discípulos trocaram de rumo, tapando as narinas, porque um cão morto exalava mal cheiro. O mestre galileu, aproveitou a oportunidade e olhando ternamente aquele corpo que se desfazia disse: que lindos dentes tem esse animal.Inocenta a sua vida, desfazendo-se de mágoas e julgamentos passados, deixando ao largo as agruras de erros que você realizou, mas que agora já não lhe pertencem. Aquela pessoa que passa, com expressão cruel, pode ser alguém que foi atingida por um dardo peçonhento; talvez esteja às voltas com uma perda irreparável, e por isso sofre e põe no olhar toda sua ira, pela má sorte. Ainda quando eu era jovem, ficava toda tarde sentado na porta de minha sala, fazendo as lições da escola e via uma senhora, minha parente passar sem me dirigir qualquer palavra. A atitude de desatenção dessa mulher sempre me indignou, até que um dia minha mãe comentou, assim como uma resposta de Deus para minha insatisfação: Wilson, a sua tia está numa situação difícil, perdeu quase toda visão e enxerga muito pouco. Quando ela passar pela rua, cumprimente-a, ela o ouvirá e saberá que você está aí sentado. Entendi a lição e em silêncio pedi perdão pelo julgamento. 49 minutos foi o tempo que o júri do Condado de Cook, Chicago, demorou para decidir sobre a punição do jovem Richard Speck. A pessoa que melhor conheceu a personalidade de Richard, foi o psiquiatra Dr. Marvin Zyporyn. Conversou varias vezes com o rapaz. Muitas pessoas me perguntam quais meus sentimentos em relação a Richard, Gosto dele. É amável, prestativo, generoso e alegre. É muito atraente.Para mim ele não é o monstro que a imprensa retrata. É um rapaz confuso, tenso, amedrontado, procurando desesperadamente ser amado, afirma o Dr. Zyporyn. Após a morte do pai, iniciou-se na delinqüência com 13 anos. Desprezava as mulheres, condenando a mãe, porque esta decidiu se casar outra vez.A indagação que se faz é a seguinte: Porque Richard assassinou as enfermeiras? O Dr. Marvin, afirma que Richard é um ser humano impulsivo, infantil, emocionantemente instável, torturado por dores de cabeça, que amenizava com tóxicos barbitúricos, tinha uma personalidade compulsiva-obsessiva, rígida, punitiva, contendo hostilidade inconsciente contra o sexo feminino. Era um doente.A justiça não o inocentou e a pena de morte foi executada. Richard deixou o corpo. O Dr. Marvin, propôs uma outra sentença. “O fato de eu gostar de Richard não significa que desculpe seus crimes, aliás, nem ele mesmo se desculpava. É fácil perdoar o inocente. A marca da verdadeira humanidade, no entanto, é perdoar os culpados”. Você acha que alguém possa ser culpado pelo que está acontecendo em sua vida? Puro engano. Nem Deus, nem os políticos, filhos, marido e vizinhos são os causadores da sua infelicidade. Você está no mundo para aprender a desvendar seus mistérios, descobrir suas habilidades e realizar o Bem em si própria. Nada nem ninguém pode ser responsável por sua vida. De vez em quando, acontece em seu Universo pessoal, o que denomino o estouro da boiada. Você perde o controle sobre seus instintos. Sim, a boiada pode estourar e não deixar pedra sobre pedra, os moirões do cercado serão derrubados, a lama e o pó tingirão de marrom o horizonte e um só ruído restará, na planície. Deixa, a boiada estourar... Ela voltará, pertence a Você, é parte de você. Compõe-se do seu ego, de suas idiossincrasias, seus projetos, seus medos. E quando o silêncio chegar e do seu peito emergir uma dor imensa, deixa também estourar dos seus olhos estas pérolas de Deus, as lágrimas, para que elas banhem seu rosto, seu colo e seus passos. Elas alvejarão seu corpo e sua alma. Depois, vá para o campo e reúna o que sobrou, levante os moirões, estique os arames, cure as chagas que surgiram em suas mãos e refaça este cenário que é só seu. E mantenha-se no seu caminho, sem julgar os outros e nem apiedar-se de si própria. Você é um ser comum, com atitudes e impulsos normais. Inspecione seu corpo, sua alma, observe-se e veja o que pode ser mudado, mude. Investigue o que pode ser melhorado, melhore. Mas não se julgue, nem se condene. Inocenta teu olhar e guarde para si as melhores palavras, elogios. Olhe no espelho e diga: você é porreta, menina. Você é uma vencedora. Gosto de você!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Interessante...

Pessoal, esse texto é de José Antônio de Souza e é bem interessante. Faz a gente refletir um pouquinho sobre nossa mediunidade. Claro que a mediunidade na umbanda é diferente daquela do espiritismo. A prática é diferente, mas será que também não precisamos de um preparo como o dos espíritas? Não sei... Só sei que, com certeza temos muito a aprender com os nossos amigos espirituais.
Meiri
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Como psicólogo não posso deixar de perceber como a personalidade do médium vai sendo moldada com o desenvolvimento das incorporações, como sutilmente vai modificando o interno do médium com o decorrer do tempo. Muitos já me perguntaram porque na Umbanda não tem um trabalho de preparo íntimo para os médiuns, porque os dirigentes simplesmente desenvolvem os médiuns e não preparam seus íntimos. Penso que os dirigentes deveriam desenvolver um trabalho de desenvolvimento interior dos médiuns, com raras exceções, a maioria dos terreiros não há uma preocupação em desenvolver um trabalho específico para a melhoria do íntimo dos médiuns.Mas ao refletir sobre o assunto percebi que este trabalho é realizado de forma silenciosa pelos guias espirituais.A reforma íntima do médium acontece na incorporação e nos contatos com os guias. A possibilidade de trabalhar várias linhas diferentes, permite ao médium a possibilidade de incorporar à personalidade o princípio do arquétipo que rege a linha.Assim ao incorporar um preto velho ou preta velha, o médium vai desenvolvendo em si a paciência, a bondade, o carinho, a empatia, o amor, a compreensão ao outro. Se estas características já eram uma tônica no seu ser, então aprimora ainda mais estas qualidades, trazendo a tona uma energia amorosa, que flui naturalmente em si, permitindo que as qualidades do guia possam fluir naturalmente.Quando estas qualidades não estão desenvolvidas o guia vai aos poucos incutindo no médium estas qualidades até que possa fluir naturalmente. A consciência destas possibilidades de aprimoramento, pode facilitar a entrega do médium ao seu preto velho ou preta velha, mais o seu chacra cardíaco vai se abrindo permitindo uma intensa luminosidade no seu ser.Ao incorporar um caboclo ou cabocla, o médium aprende a ordem, a disciplina, o ritual, a eficiência do trabalho, a priorizar o que é importante, a trabalhar com ervas, com os vegetais, com as pedras, a quebrar demandas, sempre sem falar muito, somente o necessário, sem querer aparecer, trazendo uma força grande em si, aprende a conhecer o seu próprio poder, a força que possui.O arquétipo dos caboclos e das caboclas é o do poder da luz, no auxílio ao humano, aos espíritos em evolução, e saber que tem força interna, suficiente para suportar as provações que certamente o médium passará, assim cada caboclo vai aos poucos moldando a energia do seu médium, tornando o disciplinado, atento a ritualística, ao companheirismo aos seus irmãos que sofrem, e suportando em si muitas vezes as dores do outro.Aprende a resignação quando recebe os ataques em decorrência do seu trabalho mediúnico, aprende que ao suportar as aflições sem reclamar dos guias, está fortalecendo seu íntimo, criando uma estrutura psíquica forte em si com capacidade, de relacionar com os adventos da vida de forma harmoniosa.Os baianos trazem a descontração, o aprendizado de como trabalhar as adversidades, a alegria, a flexibilidade, a magia, a brincadeira sadia. Assim médiuns que são introspectivos, quando incorporados em seu baiano ou baiana, soltam-se liberando sua alegria interna, a descontração.Outros, já são descontraídos por natureza, e desenvolvem outras qualidades junto com seu baiano, como a flexibilidade diante das situações, como amparar o irmão com alegria, trazer a alegria para o próximo.Transmutando a tristeza do outro transmitindo alegria e esperança. E muitas outras coisas aprendemos com os baianos. Descubra o que o seu baiano está aprimorando em você.Os ciganos também aprimoram seus médiuns, trazendo a suavidade, a beleza, o encantamento, o envolvimento, a intuição, a paixão pela vida, pelo belo, pela música, a cura.Os marinheiros permitem aos médiuns, desenvolverem o equílibrio emocional, entrar em contato com as emoções mais íntimas desbloqueando e liberando os excessos, os vícios.Desenvolvendo no médium a capacidade de sentir as dores dos outros e com isso aprimorando as relações com o seu irmão.Os boiadeiros trazem para o médium a força necessária para caminhar no mundo, para lidar com as adversidades da vida, fortalecendo- o diante do mundo, mostrando que a luta sincera, o bom combate, leva a luz.A linha do grande oriente, onde incorporam guias orientais, hindus, mulçumanos, chineses, entre outros, estimula no médium o caminho da evolução espiritual através dos estudos, da meditação, do conhecimento das leis divinas, do amor, da verdade, da ciência, da arte, do belo.Estimula no médium o caminho da ascensão espiritual, fazendo-o eliminar da sua vida tudo o que é pernicioso.Exú e Pomba-gira, trazem a tona a sombra do médium, aquilo que necessita ser trabalhado e está escondido no seu ser. A ganância, a soberbia, a ira, o ciúme, os medos indizíveis, o orgulho, o perfeccionismo entre outras coisas. Exú tem a capacidade de espelhar o que está no íntimo do médium, mostrando o que está no seu interior. E só perceber como seu Exú ou Pomba-gira e terá uma pista do que traz no seu íntimo.O trabalho com a própria sombra é facilitado com a incorporação dos Exús e Pomba-giras. Assim quando o médium diz: meu Exú é galanteador, é importante o médium ver o quanto traz de Don Juan. Quando a Pomba-gira é indisciplinada, o quanto o médium tem de rebeldia não trabalhada. Exús orgulhosos, médiuns necessitando trabalhar a soberbia, Pomba-giras vaidosas em excesso, médiuns necessitando trabalhar a vaidade.Muitas vezes também Exú e Pomba-gira espelham qualidades íntimas dos médiuns, tais como: Exús eruditos, médiuns que buscam o conhecimento, Pomba-gira trabalhadora, médium esforçada, Exús guerreiros, médiuns batalhadores e assim por diante as qualidades e defeitos dos médiuns são espelhadas por Exú e Pomba-gira.Aprendem com eles o médium que tiver coragem de se olhar sem medo, e perguntar o que seu guia de esquerda traz que desagrada, sem medo, pois Exú está ai pra isso mesmo, mostrar o que não queremos esconder, trazer a tona aquilo que precisa ser trabalhado.
José Antônio de Souza – Psicólogo
(Grupo umbanda_universalista@yahoogrupos.com.br)